Um empuxo às compulsões - Jornal de Colombo

Um empuxo às compulsões

Ao tentar pensar a subjetividade na contemporaneidade, o que primeiro nos ocorre são as imagens de pessoas felizes, com seus corpos magros, malhados, alimentados por comidas saudáveis, suplementos e muito treino. O que de algum modo podemos afirmar é que vivemos na era do excesso, do mais além, do intenso, do imperativo do gozo. Gozo

Ao tentar pensar a subjetividade na contemporaneidade, o que primeiro nos ocorre são as imagens de pessoas felizes, com seus corpos magros, malhados, alimentados por comidas saudáveis, suplementos e muito treino.

O que de algum modo podemos afirmar é que vivemos na era do excesso, do mais além, do intenso, do imperativo do gozo. Gozo que se exprime de todas as formas em especial nos ditos: ame de corpo e alma, viva intensamente, curta ao máximo, coma sem culpa, viaje o mundo todo, fique rico rapidamente e sem sair de casa, goze sem limites, não aceite menos que isso. Chega a parecer que se não for assim nem vale a pena. Isso também faz parecer que as experiências vividas onde a falta comparece onde há limites, são desinteressantes, não são tão prazerosas ou estão sempre em débito, trazendo insatisfações e frustrações constantes.

Seriam essas as formas de mal-estar hoje na civilização? Sim, pois somos seres de cultura e de linguagem, banhados pelo simbólico, portanto a cultura cria por si só o mal-estar e ao mesmo tempo te vende o antídoto para que lide melhor com isso: plásticas, cirurgias, medicamentos, para conter a fome, para dar fome, para dar mais prazer sexual, para levar além dos seus limites, academias se multiplicam uma em cada esquina, clínicas de estética, clínicas de emagrecimento, planos de dietas mirabolantes, etc.. Tudo para atender um grandioso plano de felicidade, felicidade irrestrita e transbordante! 

Lacan cunhou um termo psicanalítico chamado gozo. Esse conceito ilustra os fenômenos no ser falante e faltante como aquilo que se situa num mais além, num excesso. Como diria Freud, um mais além do princípio do prazer, uma pulsão de morte que remete o sujeito ao excesso, e que para ser atingido, coloca o desejo de fora, como se o sujeito fosse tomado por algo, onde inclusive não se é mais sujeito (no sentido de que porta um desejo e que pode responsabilizar-se por ele). O excesso é algo sem palavras, um ato, uma ação irrefletida, uma compulsão e confronta o sujeito com a morte. Isso é bastante visível nas toxicomanias, nas compulsões sexuais, nas obesidades mórbidas.

As compulsões num primeiro momento podem parecer tolas e sem sentido, mas num percurso de análise, o sujeito poderá construir uma compreensão e por fim elaborar pela via da palavra um saber sobre seu modo de gozo, sobre si, dando-lhe um novo sentido.

Autores atuais pensam que os sintomas compulsivos não podem ser considerados simplesmente como manifestações do inconsciente, pois se apresentam muito mais pelo ato, onde as ações se mostram sem um sujeito.

São sintomas que apresentam um encurtamento pulsional, onde se evidencia uma ausência de queixas e de palavras, e em seu lugar apenas atos, numa relação com a satisfação que é destrutiva e mortífera. 

E os analistas? Esses seguem apostando no sujeito, no desejo e nas palavras!

Izabel Cristina de Paiva Linares é Psicóloga (CRP-08/27332), especialista em psicologia clínica e psicanalista em permanente formação. Seu consultório em Colombo fica localizado na Av. Marginal José Anchieta, nº 906, às margens do KM2 da Estrada da Ribeira. Contato: 41 98516-3884.  

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