Do passado e do presente - Jornal de Colombo

Do passado e do presente

Temos uma relação ambígua com o passado. Portanto, nosso presente também é ambíguo, pois o agora só existe porque existiu o antes. Nossa dificuldade em lidar com o passado é fruto de nossa dificuldade em compreendê-lo ou pelo menos vislumbrá-lo. Essa dificuldade acabou levando nossa civilização a “perenizar o presente” (expressão que tomo emprestada de

Temos uma relação ambígua com o passado. Portanto, nosso presente também é ambíguo, pois o agora só existe porque existiu o antes. Nossa dificuldade em lidar com o passado é fruto de nossa dificuldade em compreendê-lo ou pelo menos vislumbrá-lo. Essa dificuldade acabou levando nossa civilização a “perenizar o presente” (expressão que tomo emprestada de frei Betto). Ou seja, nós adotamos uma espécie de surdez histórica, uma recusa a pensar historicamente, fingindo que nosso presente é perene, para sempre. Como o presente é “para sempre”, nada importa muito, pois nenhum acontecimento terá solidez histórica.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, falecido em 2017, chamava o nosso presente de “modernidade líquida”. Na nossa modernidade, tudo é líquido, tudo escorre pelas mãos. Vou mais além de Bauman: acho que o passado também está sendo liquidificado. Qualquer um pode falar qualquer coisa sobre eventos que ocorreram há cinco, dez, cinquenta, cem ou mil anos atrás. Enquanto obras de historiadores honestos pegam poeira nas prateleiras, textos e vídeos opinativos sem qualquer referência a fontes (compartilhados avidamente via redes sociais) vêm se tornando a nova base de “conhecimento histórico” de milhares de pessoas sem tempo ou sem vontade de ler um livro de algumas centenas de páginas, mas que passam horas na barra de rolagem do Facebook, deparando-se com interpretações e reinterpretações do passado que vão do ótimo ao sofrível, passando pela pura e simples picaretagem.

Outra atitude bastante comum em nossa relação com o passado é reduzi-lo a estereótipos de valor, normalmente comparando-o de forma rápida e generalizada ao presente. São as clássicas exclamações “antigamente era tão bom”; ou então, “antigamente era muito pior que hoje”. No primeiro, deparamo-nos com uma idealização do passado, quase uma sensação de utopia perdida. Há grupos que entendem que o nosso presente é uma era de intensa depravação, contraposta a uma Idade de Ouro em que os valores morais garantiam paz e felicidade. Não é preciso muito esforço para desconstruir esse mito.

Há quem diga, por exemplo, que escândalos de pedofilia dentro de denominações religiosas são novidade. A novidade é que hoje esses casos se transformam em escândalo, pois “antigamente” eles ocorriam talvez com intensidade ainda maior (a julgar por relatos produzidos desde a Idade Média), mas sempre se dava um jeito de abafar. O mesmo pode ser dito sobre o saudosismo em relação a regimes políticos autoritários. A idealização das ditaduras militares que marcaram a América Latina entre as décadas de 1960 e 1980 é fruto de uma profunda ignorância quanto aos mecanismos de instalação e de permanência daqueles regimes, baseados não apenas na coerção e no autoritarismo, mas também nos conchavos e na corrupção.

Quanto àqueles que acham o presente muito melhor que o passado, é bom lembrar que o conflito civil na Síria já é a maior tragédia humanitária da história desde a Segunda Guerra Mundial. E está acontecendo agora, neste exato momento.

Não somos/fomos nem melhores nem piores. Procurar entender a História (com H maiúsculo mesmo) não é buscar modelos de utopias ou distopias nos períodos que se foram, mas vislumbrar como nossos contraditórios pendores para a competição e para a colaboração se expressaram ao longo do tempo.

Tiago Wolfgang Dopke é professor de História do IFPR Campus Colombo e é um dos colunistas do projeto História no Jornal, desenvolvido no Instituto Federal do Paraná – Campus Colombo, em parceria com o Jornal de Colombo. 

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