Brasil: uma democracia racial? - Jornal de Colombo

Brasil: uma democracia racial?

Talvez as pessoas do presente não consigam ter a percepção do quão ignominioso foi o crime da escravidão. Basta constatarmos que os descendentes de alemães mantêm seus sobrenomes alemães, assim como os descendentes de italianos mantêm seus sobrenomes italianos. Mas os descendentes de africanos não têm sobrenomes africanos: seus senhores tiravam deles até o direito

Talvez as pessoas do presente não consigam ter a percepção do quão ignominioso foi o crime da escravidão. Basta constatarmos que os descendentes de alemães mantêm seus sobrenomes alemães, assim como os descendentes de italianos mantêm seus sobrenomes italianos. Mas os descendentes de africanos não têm sobrenomes africanos: seus senhores tiravam deles até o direito de manter seus nomes ou decidir o nome de seus filhos.

Talvez essa nossa resistência em reconhecer nosso racismo seja fruto indireto de uma obra publicada na década de 1930: “Casa Grande e Senzala”, do sociólogo Gilberto Freire. Embora seja um clássico e tenha sido o primeiro trabalho que tratou da presença negra no Brasil como algo positivo, o livro introduziu uma falácia que ainda hoje influencia parte da opinião pública sobre as relações raciais no Brasil: a ideia de democracia racial, ou seja, de que a escravidão brasileira foi branda, gerando aproximações pacíficas entre negros e brancos durante o período colonial, resultando em uma sociedade racialmente harmônica, miscigenada, sem conflitos. Essa visão de sociedade ajudou e ajuda o establishment branco a se impor sem contestações, pois, em uma “democracia racial”, qualquer reivindicação com base étnica só pode mesmo ser “mimimi”.

Desconstruir essa falácia é uma das lutas dos professores de História (ou de qualquer outra disciplina). Utilizar estatísticas para mostrar como existe sim um abismo racial neste país, utilizar documentos históricos confiáveis para provar como nossa escravidão foi sim violenta e ultrajante. E tentar incutir na juventude um senso crítico em relação ao conceito de meritocracia irrestrita, segundo a qual só é pobre quem não se esforça. Se tal falácia fosse concreta, os afrodescendentes seriam as pessoas mais ricas do Brasil, pois seus antepassados foram os únicos que de fato trabalharam neste país durante 400 anos.

Tiago Wolfgang Dopke é professor de História do IFPR Campus Colombo e escreve para o projeto História no Jornal, desenvolvido no Campus Colombo, em parceria com o Jornal de Colombo. 

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