Setembro amarelo e os cuidados com a saúde mental - Jornal de Colombo

Setembro amarelo e os cuidados com a saúde mental

Setembro amarelo e os cuidados com a saúde mental

O Setembro Amarelo está em evidência. A campanha, ligada à prevenção ao suicídio e ao cuidado da saúde mental, é amplamente diulgada na mídia e traz um alerta importante para toda a sociedade. Para falar sobre este tema, o Jornal de Colombo entrevistou o psicólogo Allan Martins Mohr (CRP 08/13155), doutor em filosofia, psicólogo da

O Setembro Amarelo está em evidência. A campanha, ligada à prevenção ao suicídio e ao cuidado da saúde mental, é amplamente diulgada na mídia e traz um alerta importante para toda a sociedade. Para falar sobre este tema, o Jornal de Colombo entrevistou o psicólogo Allan Martins Mohr (CRP 08/13155), doutor em filosofia, psicólogo da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e professor de Psicologia na FAE Centro Universitário. 

Jornal de Colombo – Muito se fala sobre o Setembro Amarelo. Qual o principal objetivo desse tipo de campanha?

Allan Mohr – O principal objetivo da campanha é poder trazer o assunto à tona, fazer com que nos possamos entender que as questões de saúde mental, e não só o suicídio, mas todas as outras questões, como depressao, ansiedade, transtorno de personalidade, para que isso possa começar a deixar de ser tabu. Isso é o mais importante. Para que possamos parar de entender que depressão é uma besteira ou mimimi. O principal objetivo é poder dizer que “olha, as questões de saúde mental existem, o sofrimento humano existe, está aí e é relativo a todos nós”. Isso é inerente a nossa vida e não é falado. Até por conta de toda uma história, de uma cultura. “Homem não pode chorar, você tem que ser resiliente, vestir a camisa da empresa não importa o quê, engole o choro”. Tudo isso que diz que não temos o direito de sermos humanos, de sofrer. Essas campanhas trazem à tona os problemas de saúde mental.

JC – Divulgar informações referentes à saúde mental é um dever da imprensa e da mídia em geral. Porque você acredita que vemos tão poucos conteúdos referentes a isso e quando isso acontece é sempre em períodos específicos como o Setembro Amarelo? 

AM – Eu vejo isso como um fator cultural, de que falando só em setembro, fazendo palestras, a gente resolve o problema. Porque a nossa cultura tem essa ideia de produto. De fast food. “Em setembro eu dou uma palestra de uma hora para meus funcionários achando que vou resolver o problema da saúde mental ao longo da vida dele”. E a gente trata a saúde mental como tratamos as relações de produção e produto em nossa sociedade. Coisas descartáveis que compramos, usamos e jogamos fora. E a saúde mental não é dessa ordem. É da ordem da subjetividade, de uma história individual de cada um. Nesse sentido ela é muito diferente, senão o oposto dessas outras relações. 

JC – Por que falar sobre o suicídio e a saúde mental em geral é um tabu? E como quebrar esse tabu?

AM – São dois tópicos diferentes: falar sobre saúde mental e falar sobre suicídio, que tem alguns aspectos mais singulares. De fato é um tabu e mudar isso, com certeza é muito difícil até porque a gente ainda tem na nossa sociedade um discurso que sustenta a ideia de que eu não posso sofrer e tenho que ser resiliente sempre com todas as coisas e cada vez mais. Ou seja, se seu chefe está te pisoteando, “olha, você não pode reclamar, veja o tanto de gente que está querendo seu lugar”. Temos alguns discursos que sustentam isso. E quando falamos em pensar em saúde mental, não  é só para esse que está sendo esmagado, mas para esse chefe que também precisa esmagar. Quando pensamos em saúde mental não é apenas para um grupo de pessoas. Quando falamos em saúde mental obrigatoriamente estamos falando da sociedade. Não adianta eu propor um trabalho de sáude mental a um grupo específico e esquecer de todo o resto. O sofrimento é sistêmico. Pensar isso a nível cultural seria o melhor dos casos, a melhor maneira para que você possa de fato ter uma mudança. Isso precisa ser falado, essas questões precisam ser discutidas. Toda a cobrança, essa maneira temos de produzir e cobrar por produção, deixando de lado todas as subjetividades das pessoas. Isso é prejudicial. Falar sobre isso é extremamente importante. Por outro lado, temos a questão do suicídio, que é extremamente importante de ser falado e pensado, mas exige alguns cuidados. Temos que ter todo um cuidado para não midiatizar casos de suicídio para que não se torne em gatilhos, que contagie outras pessoas que estão mal. Nós podemos falar sobre ele, devemos falar sobre esse sofrimento extremo, mas com o cuidado de não midiatizar, de não romantizar. Para não fazemos um desserviço.

JC – A terapia psicológica e psiquiátrica, muitas vezes, é tida como distante da população. Hoje, que tipo de ações o poder público ou a sociedade civil fazem para atender a saúde mental da população mais vulnerável?

Temos o CVV (Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188), em que apesar de não ser uma terapia , se propõem a essa escuta pontual. Mas a gente tem hoje em dia muitas instituições que se propõe a atendimentos sociais e que estão abertas a população. O próprio poder público tem nos postos de saúde o trabalho de psicólogos. Obviamente, ainda, com pouco investimento. Não temos psicólogos pra todo mundo, são atendimentos restritos, horários restritos, mas já existe. Se a população vai até o posto de saúde em que está cadastrado, ela consegue esse encaminhamento. Temos os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), alguns que são 24 horas, em que você pode ir lá, conversar, ser acolhido. Há esse trabalho no SUS (sistema Único de Saúde). O SUS é extremamente importante para esse trabalho terapêutico.

JC – O que as pessoas podem fazer em seu cotidiano para cuidar de si mesmo, da própria saúde mental, e também do próximo, de um familiar, amigo ou colega de trabalho que está passando por um momento delicado?

AM – A gente tem visto muitas iniciativas interessantes. Esportes ajudam bastante a saúde mental e física. Há técnicas alternativas como meditação, yoga, relaxamento, técnicas que inclusive encontramos no SUS hoje em dia. O próprio contato social: ter amigos, rodas de conversa, grupos de estudo. Tudo isso que faz com que eu possa ter um convívio com o outro e consequentemente consigo mesmo. Em relação a conhecidos ou faniliares que estejam acendendo o alerta passando por um momento mais complicado, você deve escutar, acolher, perguntar se precisa de ajuda, mas faça o encaminhamento. Nem que você precise ir junto dessa pessoa no psicólogo, no postinho. Porque alguém que não é preparado a assumir a responsabilidade por um caso mais complicado, pode não ajudar a outra pessoa e ainda acabar afetando a sua própria saúde mental. Pra você ficar bem e cuidar do outro na medida do possível, é importante que você possa encaminhá-la a um atendimento adequado.

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