Ecos da abolição da escravatura: reflexões sobre o dia 14 de maio - Jornal de Colombo

Ecos da abolição da escravatura: reflexões sobre o dia 14 de maio

Ecos da abolição da escravatura: reflexões sobre o dia 14 de maio

O dia 13 de maio de 1888 não foi um dia de libertação para os afrodescendentes, mas para o peso na consciência dos escravocratas. O protagonismo da luta pela libertação não foi da Princesa, que assinou uma lei irresponsável tardiamente, mas do povo negro brasileiro, que lutou incansavelmente pela liberdade desde o início do século

O dia 13 de maio de 1888 não foi um dia de libertação para os afrodescendentes, mas para o peso na consciência dos escravocratas. O protagonismo da luta pela libertação não foi da Princesa, que assinou uma lei irresponsável tardiamente, mas do povo negro brasileiro, que lutou incansavelmente pela liberdade desde o início do século XVI, pagando com suas vidas, seu sangue e suor.

No dia de ontem, em todo o Brasil, houve manifestações de ressignificação do dia 13 de maio, antigo “Dia da Abolição da Escravatura”; ressignificado atualmente para “Dia Nacional de Combate ao racismo”. No governo federal, o presidente ratificou a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e formas correlatas de Intolerância. Vale destacar que a Convenção tem  caráter vinculante, ou seja, obriga aos Estados partes da Convenção a realizarem o que nela está descrito, diferente das Declarações, que são como cartas de intenções. No governo estadual do Paraná, houveram importantes encaminhamentos da audiência pública “Combate ao Racismo” promovida pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Paraná em parceria com a Defensoria Pública da União no Paraná, da qual participei em fevereiro deste ano. Foi anunciado que os servidores estaduais serão capacitados para identificar crimes de racismo e de intolerância e dar a devida assistência às vítimas. A secretaria de segurança pública afirmou que vai estudar a possibilidade de implantação da Delegacia Especializada de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. No entanto,  mais de um mês após a eleição das entidades da sociedade civil para o Conselho Estadual, a nomeação ainda não aconteceu. 

Na capital, o Movimento Negro foi para as ruas denunciar o racismo. O Conselho Municipal de Curitiba promoveu uma sensacional Aula Magna, com a escritora e procuradora Dra Dora Lucia Bertúlio, cujo tema foi “A invisibilidade é o ponto nevrálgico do racismo no Paraná”. Clique AQUI para assistir!

Curitiba está em fase de elaboração do seu Plano Municipal de Promoção da Igualdade, no entanto o prefeito municipal nega a existência do racismo institucional, nega a presença negra em sua história e até mesmo na sua população atual. Deve ser difícil para as famílias que tiveram suas fortunas construídas sobre o trabalho escravo, admitir que o DNA africano e o indígena, e não só o DNA europeu, tenha voz em nossa sociedade e ocupe espaços de poder antes destinados exclusivamente para os seus amigos e familiares…

Em Colombo, o Prefeito Helder Lazarotto também se manifestou. Em suas redes sociais, anunciou a abertura da exposição de arte “Linha Preta nos traços de Luz Amorim“, na Casa de Cultura de Colombo. Anunciou que está pensando na possibilidade de executar a lei 12.288/10 e criar o Conselho Municipal e a Coordenação de Promoção da Igualdade Racial, bem como a Casa de Cultura Afro-indígena

A Diretora de Cultura, Marinei Vidolin, em parceria com o Centro Cultural Humaita, assumiu uma postura anti-racista e estará se dedicando neste mês de maio a atuar com firmeza no enfrentamento ao Racismo Cultural. O Estatuto da Igualdade Racial foi distribuído aos secretários e, juntamente com o livro “História e Cultura Afro-colombense”, é leitura obrigatória neste mês de maio para os servidores, principalmente Prefeito, Vice-Prefeito, Secretários/as, Diretores e Legisladores. Veja como adquirir o livro e mais algumas Dicas Anti-racistas clicando neste LINK.

Outra ação realizada é a distribuição, junto ao setor de educação, de subsídios para a lei 10.639/03 (que determina a inclusão da História e Cultura afro e indígena nos currículos escolares). Uma sugestão para a secretaria de educação e cultura, em parceria com a assistência social, seria a criação de uma campanha de livro, leitura e literatura: “Colombo lê!” para que as pessoas possam conhecer mais e contribuir melhor na luta anti-racista. 

Destaque para o legislativo colombense, na figura do Vereador Anderson Prego, que tem demonstrado ações anti-racistas e de promoção da igualdade em Colombo. Propôs a criação da Semana da Igualdade Racial e o Título de Cidadão Honorário ao Babalorixá Jorge Kibanazambi.

A Secretaria de Saúde permaneceu em silêncio com relação à política de saúde integral da população negra e sentimos também a ausência do Dia Municipal da Capoeira. Esta é uma lei de certa forma irresponsável, pois após mais de uma década ainda não recebeu a devida atenção da municipalidade. 

Neste 14 de maio, convidamos o poder público para refletir sobre a Colombo que queremos, com mais isonomia e menos eugenia. Afinal, não basta não ser racista, é preciso ter atitudes anti-racistas.

Nesta sexta-feira,dia 14 de maio de 2021, compartilhamos o poema “14 de maio”, de Mel e Candiero, no livro AfroCuritibanos: crônicas, manifestos e pensamentos azeviche:

14 de maio

Fala ancestral
Poesia antiga
Contada
Contida
Oprimida
De quem não pode escrever uma linha
Por falta de pena, tinta e papel.
Céu, florestas, montanhas, mar, lagos, rios…
Alforria
Lágrimas de rebeldiaAlegria
Fogo da justiça
A senzala virou cinzas
E nem era quarta-feira
Levantei sacudi a poeira e fui pra rua
Fora da fazenda
Celebrar a abolição
Junto com meus irmãos
Abrimos a porteira e botamos o bloco na avenida
Bloco dos desempregados
Bloco dos sem-terra
Bloco dos sem teto…
O Bloco do dia seguinte
Era o 14 de maio…
Uma segunda-feira
Sem oferenda…
Sem tamborins, cuícas e bumbos
Livres e sem rumos
Com fome a vadiar…
Vagar
Procurando um lugar para se instalar
Debaixo de uma árvore não é um bom lugar
Mas dá pra descansar…
Vários blocos ainda irão desfilar
Os voluntários da pátria
Os peões tropeiros
Os sexagenários
E os lanceiros negros
O bloco do ventre livre se uniu aos dos menin@s de rua
E vão desfilar em frente à igreja com o bloco dos sem alma…
O bloco “queremos indenização” era só de fazendeiros
Não podia entrar índios e negros…
E a barriga não parava de roncar
Festejar o que?
Minha liberdade nunca foi tirada
Nasci livre… Inocente
Preso em correntes de letras, decretos… Leis
Quem inventou a regra desta brincadeira? Não sei
Já contei de 1888 a 2020
132 anos e contando…
E continuam
Brincando de esconde-esconde
Escondendo nossa história
Camuflando as contribuições
Escondem das crianças negras e índias
Demonizam nossa religião
Será que é por peso na consciência?
Por que querem a negar nossa memória ancestral?
E se o dia 20 de novembro for feriado?
Haverá uma reflexão sobre o que foi a escravidão?
Celebraremos Zumbi como herói nacional?!
Preciso de uma lança
Uma pena
Uma caneta…
E todas as sextas-feiras… Desfilaremos de branco
Em homenagem a nossa consciência negra
20 de novembro será todos os dias do ano
Um louvor silencioso aos Deuses do Pantheon Africano…
Nossos Nkises, Voduns e Orixás
XEU EPA, BABÁ!

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