A Páscoa ressignificada no ano de Oxalá - Jornal de Colombo

A Páscoa ressignificada no ano de Oxalá

A Páscoa ressignificada no ano de Oxalá

Há 2021 anos, Cristo foi perseguido, preso, humilhado e morto. Na ocasião, ele propôs o princípio da igualdade entre todos sem distinção, através do mandamento “amai uns aos outros”. O prefeito de Roma na época, Pôncio Pilatos, não se interessou pela proposta, jogou o problema para a torcida e “lavou as mãos”. Afinal, a voz

Há 2021 anos, Cristo foi perseguido, preso, humilhado e morto. Na ocasião, ele propôs o princípio da igualdade entre todos sem distinção, através do mandamento “amai uns aos outros”. O prefeito de Roma na época, Pôncio Pilatos, não se interessou pela proposta, jogou o problema para a torcida e “lavou as mãos”. Afinal, a voz do povo é a voz de Deus.

Cristo, depois de passar quarenta dias no deserto vencendo tentações infernais, entra triunfante em Jerusalém, quando acaba a quaresma e tem início a Semana Santa. Jesus é acolhido pelo povo com honrarias de Príncipe da Paz, mas a mesma multidão que O recebe com homenagens no Domingo de Ramos, por Seus milagres, na Sexta-feira da Paixão crucifica-o. Depois de descer a mansão dos mortos, ele ressuscita, representando simbolicamente o retorno da Luz ao mundo.

Em 1821, quando alguns representantes do povo propuseram a inclusão dos povos indígenas e o fim gradual do sistema escravocrata no Brasil, com obrigações para os escravistas e o Estado, a Assembleia Geral Constituinte foi encerrada a força, os deputados depostos de suas funções e muitos foram perseguidos e exilados, dentre eles o Patriarca da Independência: José Bonifácio. Apenas em 1988, o princípio constitucional da igualdade foi estabelecido no Brasil e regulamentado pela Lei Federal 12.288 de 2010, conhecida como o Estatuto de Promoção da Igualdade Racial. 

A Páscoa, portanto, é uma ótima oportunidade de reflexão sobre a luta anti-racista. A ressurreição de Cristo representa o retorno da Luz ao mundo. A luta anti-racista busca a superação da ideologia da “superioridade branca” que privilegia alguns grupos, promovendo a igualdade e o respeito entre todos, após séculos de escravismo e perseguição do povo negro e indígena e de suas tradições religiosas e culturais. 

O sacrifício.

A Páscoa rememora o mistério da morte e ressurreição de Cristo. Indissociavelmente ligado à polêmica questão do “sacrifício”, que revela a intolerância contra alguns grupos e tolerância com outros, a atual celebração dá um novo significado à antiga Pessach Judaica. Anualmente o povo deveria fazer o sacrifício de um cordeiro, para pedir a Deus proteção contra os males, harmonizar a bênção e a ira divina e afugentar o medo. Esta tradição rememorava o episódio em que Deus salvou o povo hebreu da escravidão, assolando o Egito com as dez pragas.

Nas tradições de matriz africana e na preparação da carne halal e kosher, a antiga tradição de sacralizar o sacrifício de animais enfrenta a intolerância de grupos que argumentam crueldade contra os animais. O argumento está associado a uma ética de solidariedade a todos os seres sencientes e, deste ponto de vista, os animais devem ser respeitados pois, como nós, têm consciência do que acontece com eles, percebem, sentem. 

Curiosamente, a mesma indignação não se dirige às matanças mais “comerciais”, por exemplo, dos peixes da Sexta-feira Santa ou dos perus de Natal. Mas se volta apenas contra grupos específicos marcados socialmente pelo racismo. Esta ideologia hierarquiza os grupos sociais dividindo-os entre aqueles que merecem e não merecem respeito. Neste sistema de pensamento, a dignidade humana e a própria vida de alguns tem mais valor que a de outros.

A nossa Páscoa, no entanto, estabelece uma nova aliança entre Deus e o (seu) povo. A antiga aliança entre Deus e seus filhos agora não é mais selada através do sacrifício de um cordeiro, pois Jesus é o cordeiro imolado, mas ele estabelece um novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros.”

Ora, o Brasil também inaugura uma nova era nas relações sociais, quando a constituição estabelece a igualdade entre todos sem distinção, em 1988. Grupos antes excluídos por lei devem ser ativamente contemplados pelas políticas públicas para garantia de acesso a todos os seus direitos básicos de cidadania – saúde, educação, cultura, segurança, moradia, comunicação, etc. O privilégio de poucos deve ser universalizado a todos, todas e todes. 

O ano de Oxalá

Nas religiões de matrizes africanas todos os dias são santos e, em especial, toda sexta-feira é dia de celebrar Oxalá, o Senhor do pano branco, o pai da serenidade, o pai da criação. 

A mais famosa festa em sua homenagem é a lavagem das escadarias do Bonfim, em Salvador, que reúne milhares de adeptos e simpatizantes para homenagear a memória de Oxalá, que no sincretismo representa Jesus Cristo. No Paraná, destacamos a festa das Águas de Oxalá, que também é tradição em Colombo.

Especialmente neste ano de 2021, que é inteiro consagrado ao Senhor do pano branco, somos convidados ao discernimento e à ação permanente em conexão espiritual com os ensinamentos de Cristo e de Oxalá.

Oxalá, essa Páscoa traga Luz à humanidade, para enfrentarmos o obscurantismo com fé, coragem e determinação!

Como dizia aquele sábio senhor de pele da cor do bronze e cabelos como lã de ovelha: “Conheça a verdade e ela vos libertará”. Conheça a pluralidade, a diversidade, a complexidade, questione, reflita e rompa com os antigos paradigmas escravocratas, racistas e intolerantes em nome de um novo tempo de amor, respeito e promoção da igualdade.

* Candiero é escritor, membro do Centro de Letras do Paraná, do Fórum de Religiões de Matrizes Africanas de Curitiba e Região Metropolitana e da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra da OAB/PR.

C’oração

Moro em uma selva de pedra
E ouço tambores.
Passo a passo
Passo encruzilhadas. Laroiê!
Ouço tambores em minha cabeça,
Os tambores falam comigo.
Observo as ruas
E vejo o caminho aberto. Ogunhê!
Tiro meus sapatos
E piso na terra. Atotô!
Ouço tambores na minha cabeça
E fico em silêncio.
Entro na mata
Peço agô. Okê Arô!
Ouço tambores na minha cabeça.
Contemplo a natureza,
Vejo as folhas. Ewê ó!
Os tambores falam comigo.
O tempo fecha,
Relampejou,
Vento e tempestade. Epahei Oyá!
Ouço tambores
E trovoadas na minha cabeça.
Kaô, Kabiecilê!
Corro em direção ao rio. Oraieiê, ô!
Os tambores falam…
Ouço tambores na minha cabeça.
Olho para o firmamento,
Surge o arco-íris. Arrobobô!
Os tambores falam.
Súbito, os meus pés
Se afundam no barro. Saluba, Vovó!
Sigo o curso das águas,
Que dançando desembocam no mar.
Odo Yá, minha mãe!
Ouço tambores na minha cabeça.
Respiro fundo e sinto a brisa no ar.
Exee, Babá!
Os tambores falam comigo.
Ouço tambores no meu coração.

Poema de Mel e Candiero, in Afrocuritibanos: crônicas, manifestos e pensamentos azeviche. Curitiba, Editora Humaita, 2015.

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